Capuchinhos e terenas no cuidado da vida na pandemia

Os povos indígenas, segundo a história nas Américas e o órgão de saúde indígena (Secretaria Especial de Saúde Indígena – Sesai), são os mais vulneráveis a doenças respiratórias. Por isso, a pandemia está atingindo às populações indígenas e ceifando muitas vidas. Essas perdas são carregadas de saberes, ancestralidade, cultura; cada morte leva consigo parte de um povo. Avaliamos essa pandemia como um novo genocídio aos povos originários.

Dentro dessa realidade pandêmica, o povo Terena (residente em sua maioria no estado do Mato Grosso do Sul) fez, como medida de proteção e combate ao covid 19, barreiras sanitárias nas suas aldeias e territórios. Essas funcionaram de maneiras diversas em cada região, mas de modo geral consistiam em bloqueios e controle da entrada e saída de membros da comunidade e pessoas alheias. Esse trabalho foi feito pela própria comunidade e teve em vista que o povo Terena contêm territórios muito próximos às cidades, além de boa parte da sua população estar dentro dessas cidades ou trabalharem nelas, facilitando a contaminação.

Vista a necessidade e a dificuldade de recursos para proteger seu povo, os Terena se mobilizaram nas comunidades e foram atrás de pessoas e instituições que pudessem auxiliar com materiais para suas barreiras. Assim, as pessoas nas aldeias ou territórios, ou conjunto de aldeias, se articularam para revezamento, medindo temperatura, desinfectando pneus de carros, proibindo a entrada de estranhos etc.

Envoltos nessa realidade estamos nós, Franciscanos Capuchinhos do Brasil Central (MS, GO, TO e DF). Seja historicamente, como a presença do frei Mariano de Bagnaia no século 19, através do processo de aldeamento do povo terena e outros, seja recentemente com a presença, estudos e trabalhos do frei Alfredo Sganzerla. E, também, no atendimento pastoral por diversos confrades à comunidade Nossa Senhora da Abadia, na aldeia Tereré (Sidrolândia/MS), e por alguns frades com a presença em tantas aldeias dos Terena com a assistência religiosa, presença fraterna, participação nos movimentos indígenas e outros.

Por essa afinidade com esse povo e conhecendo de perto suas necessidades, a nossa Ordem capuchinha, através do JPIC (Serviço de Justiça, Paz e Integridade da Criação) da Província do Brasil Central, pode ajudá-los através do Fundo de Solidariedade da Ordem. Por isso, aconteceu a articulação de materiais para confecção de máscaras, compra de luvas, termômetros infravermelhos, bombas para a desinfecção de rodas de carros, além da ajuda com a logística para a entrega desses e de outros materiais.

Para que isso acontecesse, o capuchinho frei Klenner Antônio esteve nas barreiras, entregando os materiais em 19 localidades (entre aldeias, territórios com várias aldeias, aldeias urbanas e rurais), o que atingiu cerca de 30 comunidades.

Ele, assim, pode se encontrar com as diversas necessidades que essas comunidades estavam passando. Desde realidades de falta de assistência religiosa (como quase um ano que o padre responsável não celebrava a Eucaristia com a comunidade católica) até a falta de assistência governamental e o racismo (como a negação de testagem do covid-19 para indígenas). A falta de assistência era o mais apelado pelos moradores e responsáveis das barreiras. Eles tinham consciência do que estava por vir com a pandemia!

E realmente o medo que assolava as comunidades se transformou em realidade. Nos dias em que o frei esteve nas áreas aconteceram os primeiros óbitos naquelas regiões e o número de infectados foi se generalizando. Sabe-se que por falta de testagem se gera incertezas, porque há muito mais infectados do que se contabilizam.

Frei Klenner alega que o luto assombra cada dia mais e o que foi partilhado parece uma gota dentro de um oceano de necessidades. As comunidades continuam precisando de materiais, as lideranças e toda a comunidade continuam trabalhando para que o menor número de pessoas seja infectado, os parceiros dos povos indígenas continuam articulando para que mais materiais, além de assistência dos órgãos competentes, possam chegar até o povo. Não se tem tempo para descansar frente a essa luta contra algo incerto que é o covid 19.

A corrida é para que as culturas permaneçam, que os excluídos de nossa sociedade possam ter vida e vida em abundância, para que o racismo seja superado em todas as suas formas, para que o Estado brasileiro não continue com uma política seletiva, genocida, colonizadora.

A busca é por vida! E por esses motivos precisamos abrir os olhos para perceber o grito dos empobrecidos da nossa sociedade, abrir as mãos para servir os preferidos de Deus, rasgar o coração para sentir que um mundo novo pode ser construído e que o Reino de Deus acontece aqui e agora. A luta de agora é contra um vírus, mas é só o sinal de uma busca muito maior, por vida em abundância, em meio a esse momento de dificuldades que a humanidade passa.

 

                                                              Frei Klenner Antônio, frade capuchinho, JPIC da Província do Brasil Central