AINDA SOBRE O SÍNODO PARA A AMAZÔNIA

“Tudo está interligado!” é o artigo de frei Adriano Borges, frade capuchinhos da Província do Rio de Janeiro/Espirito Santo. Cursa Teologia no ITF em Petrópolis RJ e esteve com Dom Evaristo OFM, Dom Bernardo, OFM, Dorismeira, Moema, que participaram do Sínodo para a  Amazônia e realizou um seminário com os estudantes do ITF e como frutos deste encontro nos leva a refletir um pouco sobre as conclusões do Sínodo: 

Tudo está interligado! Mas, eu venho de uma terra em que não me falta nada.

Sou padre, freira, agente de pastoral, sou Igreja. Venho de onde a Eucaristia todos os dias é celebrada. Lá de onde a comunidade se sente nutrida, reunida, saciada. Venho de onde as pessoas saem de sua casa, nos seus carros ou só atravessam a estrada, para chegar, mais uma vez, na missa de domingo tão esperada. Venho de onde há problemas, violência, corrupção e muita gente sem viver de verdade a missão. Venho de onde ainda falta compromisso, de onde viver de fato o batismo ainda é uma longa jornada. Mas, lá quase sempre tem dois, três ou quatro padres para me incentivar a não desistir da caminhada.

Aí, por esses dias, me vem um bispo marajoara por vocação, de um lugar tão distante me dizer: o que é mais escandaloso? Ordenar um diácono permanente, ou um homem casado e provado pela lida diária da comunidade, ou, deixar um povo de fé por dias, meses, às vezes até anos sem se nutrir da Eucaristia tão esperada?

Tudo está interligado! Mas, eu venho de uma terra em que não me falta nada.

Mais uma vez o jesuíta, o mais franciscano dos Papas, ousou levar para o centro da Igreja e do mundo a triste realidade periférica de muitos povos, que no silêncio lutam, vivem e nunca desistem da caminhada. “Espia, mano”, dizem os xinguenses, que belo exemplo eles estão dando para toda a igreja que deseja ser também cuidadora dessa nossa mãe terra tão amada!

Eles foram para o centro e se fizeram ouvir e ouviram. Eram ribeirinhos, povos nativos, bispos, homens e mulheres calejados pela defesa de sua fé, terra e vida. Eles vêm de onde ainda muito falta: falta a escuta respeitosa para uma conversão bem integrada. Eles vêm daquelas estradas, quilômetros e quilômetros entre matas e muitas águas, e esperam também de nós, dos que ainda não falta nada, essa tão desejada pastoral convertida. Eles vêm daquelas línguas, tão ricas quanto diversificadas, e esperam de nós, dos que se iludem achando que não falta nada, uma conversão cultural respeitosa e de fato inculturada. Eles vêm daquela terra verde, espalhada entre nove países dessa América tão sofrida e explorada, e esperam de nós, dos que satisfeitos dizem “não nos falta nada”, que possamos ao entender que sem a conversão ecológica, todos nós estamos caminhando para o abismo de nossas almas.

Tudo está interligado! Mas, eu venho de uma terra em que não me falta nada.

As mulheres, os homens, os pastores e os padres, e até o próprio Papa, reunidos em um sínodo para pensar a região panamazônica, propondo novos caminhos para a igreja e para uma ecologia integral, nos vêm pedir que aprendamos e nos convertamos, pois a fonte eucarística nos remete também ao cume da comunhão sinodal. Sinodalidade já apontada há mais de cinquenta anos, e muitas vezes já vivida e experimentada pelos povos, por vezes liderados por mulheres servidoras, amadas e respeitadas, já verdadeiras diaconisas no chão da realidade daquelas terras em que ainda muito falta.

A impressão que dá é que o Concílio Vaticano II vem novamente convocar a coragem de repensar e se firmar em gestos concretos, para que os ministérios e a dinâmica da vida e fé possam de fato reinar. Afinal, a última porta em que se bate naquelas terras em que ainda muito falta, geralmente é a do bispo, clamando “ajuda-nos, porque mais uma vez eles querem nos tirar a terra”, mas se esquecem de que a matando eles estão também a nos matar.

Tudo está interligado! Mas, e os nossos pensamentos, corações, sonhos, a nossa disponibilidade, respeito e solidariedade, será que eles também estão interligados? Será que estou mesmo disposto a escutar, pisar naquela terra onde ainda muito falta? Mas, eu venho de uma terra em que não me falta nada, e começo a entender que mesmo que nunca venha conhecer as riquezas, culturas e belezas de seus povos, é convertendo meu olhar, julgar e agir que ela pode e começará a ser mudada. Só é preciso assumir esta nova estrada. Lá atrás já se dizia: a Igreja aponta para a Amazônia, mas e os meus pés, vigor e coração, para onde estão apontando?

 

Sobre o autor
Frei Adriano Borges de Lima, frade capuchinho, capixaba, da cidade de Viana – ES. Frei Adriano pertence a Província Nossa Senhora dos Anjos, Rio de janeiro e Espírito Santo. É graduado em filosofia e atualmente estuda teologia no Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis – RJ, e reside na fraternidade Nossa Senhora Aparecida, no Bairro Quitandinha, Petrópolis – RJ.

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